Você chegou aqui pelo livro Pior do que o Tédio?
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Uma oficina literária, um poeta premiado, um título posto contra a parede e um mantra obsessivo: como Pior do que o Tédio quase virou outra coisa.
O dia em que o nome do livro foi mastigado sílaba por sílaba e precisou provar que sobrevivia à própria dúvida.
Imagine passar meses, talvez anos, formulando um título. Aquele que, para você, captura a essência de tudo que escreveu. Ele está gravado na cabeça, impresso em rascunhos, ecoando em pensamentos. Até que um dia você o diz em voz alta para um escritor que admira e ele, com um olhar enigmático, repete o nome como quem prova a palavra na boca.
Esta é a história do dia em que Pior do que o Tédio quase deixou de ser Pior do que o Tédio. Um episódio de oficina literária, escuta, dúvida, mantra, crítica e teimosia poética.
Senha de entrada: o que foi posto à prova?
Se você chegou por um QR Code do livro, a pista está no próprio conflito deste texto. Antes da capa, antes do projeto gráfico, antes do leitor encontrar a obra, existe uma palavra que precisa chamar, prometer e resistir.
Marcelino Freire colocou essa palavra contra a parede. Elidio repetiu até quase desistir. No fim, ela ficou.
O dia em que um título foi posto à prova
O episódio começa em uma oficina criativa com Marcelino Freire. Um daqueles encontros em que o texto sai da gaveta e entra no campo do julgamento vivo: ouvido, boca, pausa, repetição e pitaco.
Marcelino tinha um exercício direto e perigoso: pensar bem no título do conto, do poema, do livro. Porque o título já é convite. Já carrega uma promessa. Já diz, antes do texto, que tipo de pacto está sendo proposto ao leitor.
Foi aí que Elidio Santos, ou Manay Deô, ou a confusão produtiva entre os dois, apresentou o nome do livro: Pior do que o Tédio.
Marcelino parou. Olhou. Repetiu baixinho: “Piordoqueotedio, piordoqueotedio, piordoquetedio...” Com aquele jeito de quem mastiga som, sílaba e intenção. Às vezes soletrava. Às vezes silabava. Às vezes parecia sussurrar para ver se o nome devolvia alguma coisa.
Rapaz, melhor pensar melhor.
Marcelino Freire · lembrança de oficina
Pensa num baque. O título, que parecia firme, de repente virou dúvida. O nome que organizava tudo ficou em estado de suspeita. E uma suspeita lançada por Marcelino Freire não passa pequena. Ela fica. Ela ecoa. Ela senta na cadeira ao lado e começa a repetir junto.
Marcelino Freire e o peso das palavras
Marcelino Freire não é desses escritores que tratam a palavra como peça decorativa. Sua literatura tem corte, ouvido, rua, ritmo e desconforto. Ele sabe que uma frase pode carregar mundo demais. Sabe que título não é embalagem neutra.
Por isso a observação teve peso. Não era um “não gostei” qualquer. Era uma dúvida lançada sobre a força de entrada do projeto. O título convidava ou afastava? Prometia demais? Soava estranho demais? Era forte ou torto? Era memorável ou incômodo?
A melhor parte é que o título sobreviveu justamente porque produziu incômodo. Ele não saiu limpo da oficina. Saiu arranhado. E talvez fosse disso que precisava: ser testado em voz alta, repetido até ficar ridículo, ameaçado de substituição e ainda assim voltar.
A frase que conectou dois livros
A relação com Marcelino não ficou apenas na oficina. Um verso de Balé Ralé atravessou o caminho do Pior com força suficiente para entrar no Volume I, nas páginas 92 e 93:
O Tietê tá aí, não deixou de morrer. São Paulo, dó de ver.
Marcelino Freire · Balé Ralé
Esse verso pegou em cheio porque sintetiza uma São Paulo ferida, repetida, adoecida, mas ainda presente. O Tietê está aí. A morte não apaga sua presença. A cidade continua. Dó de ver. Dó de viver. Dó de atravessar.
No universo de Pior do que o Tédio, essa frase conversa com o concreto, a poluição e a poesia. Não aparece como citação gratuita. Aparece como parentesco de sensibilidade: uma literatura que olha para a cidade sem higienizar a paisagem.
A oficina que colocou o Pior em xeque
Na oficina, Elidio levou o título com aquela mistura de orgulho e receio de quem entrega uma parte sensível do projeto para a escuta de outro escritor. O nome já estava impregnado de rotina, call center, cidade, tédio, crítica e jogo. Mas uma coisa é carregar um título sozinho. Outra é soltá-lo na sala.
Marcelino, antes de ser o escritor premiado, também passou por ambientes de linguagem aplicada. Trabalhou revisando textos publicitários em agência e achava aquilo um tédio. Um poeta corrigindo slogan de iogurte: a imagem parece piada pronta, mas diz muito sobre como a criação às vezes precisa sobreviver dentro de estruturas que não foram feitas para ela.
Essa aproximação criou uma faísca. De um lado, Marcelino, o escritor que atravessou a publicidade e levou para a literatura uma escuta brutal da fala. Do outro, Elidio/Manay, que escrevia poemas no avesso da rotina de telemarketing, também tentando salvar linguagem onde o trabalho parecia transformar voz em script.
O mantra de Marcelino
Depois da oficina, o título não saiu mais da cabeça. E não saiu da pior maneira: saiu repetindo. “Piordoqueotedio, piordoqueotedio, piordoquetedio...” O que antes era título virou mantra. O que era escolha virou teste. O que era certeza virou eco.
A cada repetição, uma pergunta voltava: o nome não era bom? Não cumpria a promessa? Seria melhor um título mais bonito? Mais literário? Mais claro? Mais aceito por quem espera de um livro de poesia uma certa elegância reconhecível?
Foi nessa fissura que nasceu a quase mudança. O livro quase passou a se chamar Cruzadas Poéticas.
Tinha lógica. O projeto era um jogo de palavras, um labirinto de linguagem, uma experiência com cruzadinhas, Forças, charadas, passatempos e poemas. “Cruzadas Poéticas” tinha charme, conceito, organização. Parecia título de projeto literário com roupa passada.
Mas algo incomodava. Algo não encaixava. A beleza do título alternativo parecia polida demais para um livro que nasceu do ruído. E quando o incômodo vinha, o mantra voltava: “Piordoqueotedio, piordoqueotedio, piordoquetedio...”
O nome que quase mudou tudo
A dúvida foi tão longe que Elidio chegou a editar uma capa com o nome Cruzadas Poéticas. Não era apenas exercício mental. A possibilidade existiu. O outro título chegou a vestir o livro por um instante.
Só que vestir não é habitar. E aquele nome, embora elegante, parecia deslocar a obra para outro campo. Explicava melhor a forma, talvez. Mas não carregava o incômodo central. Não tinha a mesma fricção. Não dava a mesma pequena pancada.
Pior do que o Tédio não explicava o mecanismo. Ele provocava a ferida. Tinha estranheza. Tinha humor. Tinha um quê de insulto, uma frase que parece conversa de corredor, um exagero que pede resposta. O título não dizia apenas o que era o livro. Criava uma pergunta: o que pode ser pior do que o tédio?
Um título bom não apenas nomeia. Ele incomoda antes de explicar.
arquivo do Pior · título em xeque
A última peça do quebra-cabeça
Até que um dia, um amigo de trabalho, que nem era muito chegado em poesia, ouviu a história e soltou a frase que ajudou a resolver a disputa: “Pô, Pior do que o Tédio me atrairia mais do que Cruzadas Poéticas pra ler um livro de poesia.”
Pronto. A gota d’água do acúmulo crítico repetitivo que já lotava a cabeça de Manay dentro da cabeça de Elidio. A confirmação veio justamente de fora do circuito literário, o que fazia todo sentido. O título precisava chamar também quem talvez não se aproximasse de um livro de poesia com facilidade.
Chega. Todo respeito ao Marcelino, mas o título ia continuar sendo Pior do que o Tédio.
No fim, o próprio nome provou que resistia ao tédio da dúvida. Porque ele já era loop, obsessão, repetição. Ele não perdeu força ao ser mastigado. Pelo contrário: ficou mais estranho, mais grudado, mais necessário.
O Tietê ficou. O título também.
“O Tietê tá aí, não deixou de morrer. São Paulo, dó de ver.” A frase de Marcelino ficou no livro. E o título também ficou.
Há uma ironia bonita nisso. Marcelino quase empurrou o projeto para outro nome, mas também ajudou, sem querer, a provar a resistência do nome original. Sua dúvida virou teste de pressão. Seu pitaco virou parte da história do título.
Talvez seja isso que uma boa oficina literária faz: não entrega uma resposta pronta. Coloca a palavra sob atrito. Obriga o autor a defender ou abandonar aquilo que dizia acreditar. No caso do Pior, a dúvida não matou o título. Só confirmou que ele tinha vida.
Agradecimento ao Radio Poeta
Fica também o agradecimento ao site Radio Poeta, que fez um episódio de podcast narrando o texto Amor de Poeta, de Marcelino Freire, na íntegra. A escuta desse texto ajuda a perceber a força oral da escrita de Marcelino, essa capacidade de deixar a frase parecendo conversa, sentença, pancada e música ao mesmo tempo.
O verso sobre o Tietê, extraído de Balé Ralé, segue como uma dessas frases que não passam. Elas ficam circulando pela cidade, como água suja que a gente finge não ver, mas continua atravessando.
Bônus: uma aula com Marcelino Freire
Para quem quer sentir um pouco do que pode ser uma oficina literária-criativa com Marcelino Freire, vale procurar suas aulas, entrevistas, lives e conversas disponíveis online. Há uma força muito específica no modo como ele fala de escrita: sem frescura, sem pedestal, com atenção feroz ao som, à frase, ao corte, ao título e ao que pulsa por baixo do texto.
Para Elidio/Manay Deô, passar por essa experiência foi algo marcante até hoje. Não porque Marcelino confirmou tudo. Pelo contrário. Porque colocou uma certeza em crise.
E certas crises, quando não destroem uma ideia, deixam a ideia mais forte.
Pior do que o Tédio quase virou Cruzadas Poéticas. Mas não virou. Ainda bem. Porque o Pior precisava continuar pior.
Escolha o seu ruído
Uma palavra ficou presa no concreto. Outra tenta escapar pelo canto da página.
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