Você chegou aqui pelo livro Pior do que o Tédio?
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Faz tempo que desejava revelar o que minha alma já dizia em palavras.
Um manifesto íntimo sobre assumir a poesia como identidade, não como enfeite de currículo.
A gente passa uma vida ignorando verdades que dizem sobre quem nós somos. Preferimos nos pagar de santos desavisados no inferno de não se assumir. Este texto não fala de sexualidade. Fala de essência. Daquele “eu” que quase sempre erramos quando alguém pergunta: quem é você?
No caso de Elidio Santos, a resposta vinha ensaiada demais: publicitário, comunicólogo, redator. Mas havia outra palavra batendo por baixo da profissão, como se a vida desse um tapa de mão aberta toda vez que a resposta saía incompleta: poeta.
Senha de entrada: o que faltava assumir?
Se você chegou até aqui pelo livro, a pista está no próprio gesto deste texto. Não é cargo. Não é função no LinkedIn. Não é etiqueta profissional para parecer sério.
É uma palavra curta, difícil de dizer em voz alta quando a rotina treinou a gente para parecer apenas útil.
O publicitário é um fingidor
A profissão sempre esteve ali, claro. Publicitário, comunicólogo, redator. Palavras certas, socialmente aceitas, profissionalmente úteis. Mas, quando ditas como resposta definitiva para “quem é você?”, pareciam estreitas demais.
A vida sabia. A escrita também. E, no meio dessa tensão, nasceu uma paródia íntima de Fernando Pessoa, um tipo de espelho torto para quem vive entre a criação poética e a comunicação de mercado.
O publicitário é um fingidor
trecho de Autoportifólio · versão para Autopsicografia
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é bom
O produto que ele vende
O humor da frase não alivia a pancada. Ao contrário. Ela encosta no ponto sensível: quantas vezes a criatividade é chamada para vender o que não acredita, enquanto a poesia fica escondida, esperando uma fresta para respirar?
Depois de tempos escrevendo, carregando essa paixão desde antes da alfabetização, a urgência ficou clara. Era preciso assumir não apenas uma habilidade, mas uma natureza.
Era uma vez, duas e mais
A primeira evidência veio cedo. Devia ser na terceira ou quarta série. Faltava menos de uma hora para terminar a aula quando a professora pediu que a sala escrevesse uma historinha. Boa parte dos alunos tentou liquidar a tarefa rápido. Elidio sentiu alegria.
Não há memória exata do enredo. Talvez fosse sobre um cão sequestrado. O que ficou foi a sensação de entusiasmo. A história demorou. O sinal quase tocou. A professora leu. A mãe, preocupada com a demora do filho, foi chamada à sala e encontrou não bronca, mas elogio.
Não era vaidade. Era descoberta. Amor pelas palavras. Amor pela poesia. Paixão por contar histórias e criar experiências literárias. A criança ainda não tinha vocabulário para chamar isso de vocação, mas a cena já sabia.
A livraria imaginária do quarto
Aos 11 anos, veio o primeiro livro. Sem editora, sem gráfica, sem ISBN. Folhas de sulfite dobradas ao meio, publicadas na livraria imaginária do quarto. O público cativo eram a irmã e o irmão.
Era a história do peixinho Gegê, que vivia altas aventuras no mar, trolando seu arqui-inimigo Tubarão. Com o sucesso doméstico do primeiro, veio o segundo projeto, criado em coautoria com o irmão: uma série de gibis chamada Lutinhas.
Os personagens lutadores combatiam inimigos em uma arena para salvar a Terra. Os amigos da escola liam, torciam e votavam. Na final da temporada, Snink e Veterano se enfrentariam. A votação decidia o destino do mundo.
Antes de existir planejamento editorial, já havia universo narrativo. Antes de existir estratégia transmídia, já havia participação do público. Antes de existir Pior do que o Tédio, já havia uma criança tentando transformar papel dobrado em experiência coletiva.
Às vezes, a infância não anuncia o futuro. Ela entrega um protótipo.
arquivo PQT · livraria imaginária
Sou poeta
De lá para cá, a relação com as palavras só cresceu. De verso em verso, foram cadernos, arquivos, terabytes de Google Docs, poemas, histórias, contos, ideias, personagens e mundos ainda em construção.
Agora, com um livro em vias de tomar forma pública, a pergunta ficou ainda mais incômoda: como lançar uma experiência poética sobre vivências no centro de São Paulo, sobre a cura possível do tédio na selva de pedra, sem antes assumir a própria identidade criativa?
Parece óbvio. Escreve poesia, logo poeta é. Mas a obviedade nem sempre tem coragem. Dizer “sou poeta” em voz alta carrega um risco estranho. Parece vaidade. Parece exagero. Parece que a pessoa está pedindo pedestal. Mas, nesse caso, era apenas justiça com a própria história.
> função profissional detectada: redator
> camada oculta encontrada: poeta
> heterônimo ativo: Manay Deô
> resposta assumida: SOU POETA
Sou poeta.
Sou poeta e ainda aprendo a amar.
Poeta sonhou e amou na vida.
Não sou nada sem minhas referências
Na adolescência, vieram os livros de Fernando Pessoa. A fascinação pela gênese dos heterônimos foi tão forte que abriu caminho para a criação de um heterônimo próprio: Manay Deô.
Manay passou a assinar textos, criar curiosidade, ocupar perfis, circular pelo Medium e pelas redes sociais. Mais do que nome inventado, tornou-se uma entidade literária: uma voz capaz de dizer coisas que talvez o Elidio civil não dissesse com a mesma liberdade.
Sou poeta.
trecho de A Viagem para Dentro de Mim · @manaydeo
Maestro da minha composição.
Vivo no concreto, distraindo o cinza,
e dele extraio o colorido abstrato
da imaginação.
Depois veio Drummond. Por influência de um amigo na faculdade, Elidio aprendeu a sentir o prazer de brincar com palavras, sentimentos e pedras no caminho. Arriscou aforismos, sentenças curtas e invenções vocabulares que alguns confundiam com erro, mas que já eram treinamento de linguagem.
Drummond, entre outras referências, foi uma pedra filosofal no caminho. Ajudou a consolidar a decisão de seguir profissionalmente como redator publicitário, sem abandonar a poesia que vibrava por trás da técnica.
O que me impedia de ser?
Então, que coragem era essa que faltava para dizer: sou poeta? Com tanta coisa escrita, com livro saindo do forno, custava assumir?
A verdade é que nem todo mundo tem a sorte de se descobrir cedo e poder viver imediatamente aquilo que descobriu. Por muito tempo, a vida foi a de um rapaz comum da periferia: trabalhar, ajudar em casa, estudar, tentar caber no mundo possível.
Este não é um relato para romantizar ralação. Também não é uma tentativa de vender superação. É um texto de partilha. Uma tentativa de dividir o peso de uma descoberta escrevendo.
Escrever para viver,
manifesto de identidade · Elidio Santos
na esperança de nunca parar.
No máximo, para inspirar.
No mínimo, para transformar.
Assumir-se poeta não apaga as outras identidades. O redator continua. O comunicólogo continua. O publicitário continua. Mas agora eles não precisam fingir que dão conta de tudo sozinhos. Há uma palavra mais funda organizando a resposta.
O armário das palavras
Hoje, a resposta ao “quem é você?” permanece em construção. Mas já não foge tanto. Poeta, escritor e criador. Três palavras simples, perigosas e suficientes para começar.
Seja lá o que impedia essa saída do armário simbólico, agora existe um texto de coragem. Um manifesto de sinceridade para ser justo com a própria história e com o que o universo entregou desde cedo.
Esse gesto também se conecta ao universo de Pior do que o Tédio. Porque o projeto nasce dessa mesma decisão: não aceitar que a rotina, o cinza, a vergonha ou a pressa digam a última palavra.
O poeta não aparece quando o mundo autoriza. Ele aparece quando a palavra acumulada já não aceita ficar escondida.
Um texto de coragem
Este texto foi postado originalmente no LinkedIn, em 25 de novembro de 2018, como uma declaração de identidade. Agora, dentro do universo do Pior, ele ganha outra camada: deixa de ser apenas uma confissão pessoal e passa a funcionar como peça de origem.
Porque antes do livro-objeto, antes das Forças, antes dos QR Codes, antes dos Secretos e da cidade tratada como personagem, havia alguém tentando dizer uma frase simples sem pedir desculpa.
Sou poeta.
E, às vezes, assumir uma palavra é o primeiro livro que a gente publica dentro de si.
Escolha o seu ruído
Uma palavra ficou presa no concreto. Outra tenta escapar pelo canto da página.
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